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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Violência Gratuita




- Quanto custa esse aqui?

- 36,50.

- Porra, você tá de sacanagem.

- Não, não sou pago para estar de sacanagem.

- E eu não sou pago para gastar 36,50 nisso. Não vai durar nem dois dias.

O atendente arregala bem os olhos antes de se afastar. Eu, por minha, vez viro as costas e me ponho dali pra fora.

Antes de me integrar ao fluxo de pessoas que permeia as calçadas eu não soube o que fazer. Isso é uma coisa de signos, ela costuma dizer, o meu signo costuma não saber o que fazer diante da mínima adversidade. Pergunto-me se também tem a ver com o signo quando faço coisas sem saber que aquilo é adverso.

Nesses casos só vou me dar conta depois que já fiz e no geral me arrependo. Fico na dúvida se todo o papo de signo ronda a minha cabeça apenas porque estou arrependido. Na maior parte das vezes eu acho isso a maior palhaçada. Eu detesto esses chavões que agrupam pessoas fazendo suas individualidades serem características de todo um grupo. Os homens preferem as louras, diamantes são os melhores amigos de uma garota, siga seus sonhos. Ela é morena, sabe? E isso não passa de uma bobeira hollywoodiana. Eu não gostaria mais dela se ela fosse loura. Não acho que tem jeito de gostar mais dela, eu gosto muito dela até quando fico louco. Chato que eu fique louco com tanta facilidade.

Em parte é por isso que eu entrei naquela loja onde os chocolates são caros demais. A verdade é que só dei a volta no quarteirão, acho que vou voltar lá. Só espero pegar outro atendente, aquele já deve estar de saco cheio da minha cara.

Pedir perdão com flores está fora de cogitação, isso me lembra de outro chavão que me tira do sério. Em mulher não se bate nem com uma flor. Eu bati foi com a mão mesmo.

E por mais que eu odeie chavões, tem uns que são a verdade verdadeira. Desculpa não passa a dor.


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Catarse

Catarse:   Libertação de emoção ou sentimento que sofreu repressão.
(Dicionário Aurélio)



Ela tá passando mal. E nem adianta pedir pra ela tomar um sal de frutas pra ver se resolve. É ressaca de decepção, é ferida de amor, é dor que não pode achar cura além dos ponteiros que passam no relógio vermelho do seu quarto. Marca o tempo e marca a dor também, porque parece que toda aquela dor não tem fim. É doença de alma, é sangria de coração, é tristeza além do seu olhar quase preto, quase alegre, quase bonito e quase inesquecível. 

Tá se afogando em lágrima que é pra ver se desafoga seu peito daquela dor sem nome e sem endereço que aparece vezenquando pra confrontar sua imaginação colorida com aquela realidade cinza e dura. Ela até pode dizer que a vida é bela e que o sol tá sempre lindo no céu, mas enfrenta tão grandes tempestades que ninguém nunca se dá conta.

É que ela tem esse jeitinho de quem sufoca todas as suas dores porque não suporta conviver com a ideia de quem tá machucando alguém. E tudo bem que isso abre nela feridas que ela sabe que nunca vai conseguir tampar, e tudo bem que todo mundo meio que pensa que pode fazer o que quiser com ela porque ela perdoa e deixa passar. E tudo bem que ela esquece com a facilidade com que se quebra a cada decepção. E ela já se quebrou tantas e tantas vezes que lhe falta tantos e tantos pedaços que às vezes ela se pergunta como é que está de pé e sorrindo e enfrentando a vida quando não tem a opção de apenas deixar tudo para trás e ir em frente.

Tá ouvindo um monte de música triste, sozinha pra ninguém ver. Tá voltando toda hora nas faixas de Coldplay. Tá ferindo seu corpo com suas unhas compridas que é pra ver se a dor da pele diminui a dor do coração. Tá tentando esquecer, sem reclamar pra ninguém. Porque fora da sua casa ela é sempre inteira, completa e feliz. Ela tá sempre bem disposta e sorrindo. Guarda as lágrimas só pra si. Guarda a dor só pra si. Guarda o mundo de angústia só pra si. E quando chega ao seu limite, ela passa mal entupida com o mundo de sentimento e o punhado de anos que carrega nos ombros.

Mas não cospe pra fora. Não coloca o dedo na garganta e se debruça em si mesma pra se livrar daquilo. É do tipo que acredita que tem que passar por tudo isso. é do tipo que acha que dá conta de superar qualquer coisa. Só se deixa doer, assim, sozinha, sem que ninguém possa ver o quão frágil ela pode ser. Se encolhe e se abraça e volta a posição fetal pra impedir que a dor a derrube no chão da vida. No máximo, deixa as lágrimas caírem tão silenciosamente que, se não escorresse pelo seu rosto, nem ela notaria. Depois vai pro banho e deixa a água levar. Diz ela que água leva tudo. Não tudo. Mas aí veste sua melhor roupa e vai pra luta. Luta. De luto que ninguém observa, nota ou faz questão de saber. Ela é forte, diz todo mundo, enquanto ela sorri e fala que tá tudo bem, tá tudo sempre bem, colorido no mundo fora dela e chuvoso em sua alma.

Ela tá passando mal. Tá se sufocando em palavras que nunca disse e mágoas que nunca vai expor. Vai acabar morrendo sem ar, causado por essa obstrução de quem não admite sentir dor. Tudo bem, respira ela, é bom que morrendo tudo passa. Mas enquanto isso não acontece, ela só vê os ponteiros do relógio passar e reza pra que ele cure mesmo, porque ela já não aguenta mais passar mal de tanto amor.


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Notícia de Jornal




Uns diriam que era amor. Os mais românticos, quero dizer. Davam assim um sorriso descrente como quem não acredita muito na história que está ouvindo, suspiravam meio que longe e falavam: o amor tem dessas coisas às vezes. Os mais céticos aos sentimentos chamariam de loucura. Porque quando uma coisa foge do controle só pode ser loucura mesmo, não é? E tem uns que ficam assim meio em cima do muro, meio espantados, meio abismados com a proporção que uma história pode tomar que dão de ombros e falam que é doença. Mas talvez, só talvez, amor, loucura e doença nem pode mesmo se separar assim, como se consegue separar a areia da água num experimento químico qualquer. Tá mais para uma solução homogênea, mesmo carregando um milhão de coisas juntas, impuras ou puras, pouco importa. Mais como... café.

O café é um líquido que tem mais de trezentas substâncias, e cada uma delas tem uma função de dar o cheiro, o tom, a cor, o gosto, diferente. Assim, feito café, é o amor. Umas doses a mais e ele fica insuportavelmente forte, que tá bile no estômago. Umas doses a menos e ele fica tão fraco que a gente não consegue sentir nada, nem o cheiro, nem o sabor. Se você erra no açúcar pode ser que fique tão amargo que te cause ânsia de vômito; assim também pode ocorrer com o excesso do açúcar que faz a gente torcer a boca e abandonar a xícara quase cheia. O amor é meio assim também. É uma alquimia de sentimentos que, se uma das substâncias estiver em quantidade errada, pode fazer com que todo o trabalho seja desperdiçado.

Aquele casal errou a mão. Não tô falando só dela que estampou a capa do jornal daquela manhã fria e insossa. Nem só dele que estampou as letras garrafais da manchete. Amor é feito de dois. Às vezes de três, ou quatro, mas nunca feito de um só. É que amor detesta a solidão, cês sabem, e quando um ama sozinho a coisa não anda – desanda e, por consequência, desama. Ela tinha um sorriso doce e ele um sorriso sinistro. Ela era doce e meiga e prestativa e ele... Quase sempre amargo, retraído, distante do mundo e avesso a qualquer manifestação de seus sentimentos. Um casal atípico de ficarem juntos. E como é bem típico do amor, eles ficaram.

Durou bastante, antes que queiram saber. No começo tudo foi rosa. Mas como toda rosa vem carregada de espinho, não tardou até aquela história que nunca teve muita chance de dar certo começar a machucar os envolvidos. Como eu disse, ela era prestativa. Talvez, de tanto, chegasse a ser ingênua. Ou talvez ela entendesse que estar sempre pronta a ajudar atraísse alguns caras meio estúpidos para cima dela. Ninguém sabe se ela realmente entendia a gravidade daquele traço da sua personalidade. A verdade mesmo é que ela nunca parou de sorrir e ajudar e fazer amigos em qualquer lugar por conta disso.

Ele que não gostava. Não gostava nem um pouco. E isso foi só aumentando com o passar dos meses. O tempo às vezes é cruel. Quanto mais o ponteiro maior roda mais os defeitos do outro podem ficar insuportável para gente. 

Começou de um jeito imperceptível, eu arrisco a dizer. Uns gritos aqui, umas crises de ciúme sem sentido acolá, um controle meio bobo do que ela fazia na internet ou no celular. O bichinho do ciúme parece inofensivo no primeiro momento, fica parecendo só manifestação de carinho, cuidado, medo de perder e amor. Mas medo de perder nunca fez bem pra relação nenhuma e se a gente não fica de olho o bicho do ciúme pode ficar maior que o dono e destruir tudo a sua volta como uma peste sem remédio destrói uma plantação linda de uma fazenda.

Aos poucos ela já não podia usar roupa curta, passar maquiagem, ir a algum lugar a noite sozinha ou falar com homens. Aos poucos, ela foi perdendo a vida. Bem antes dela estampar o jornal preto e branco da cidade pequena e assustar metade dos moradores com aquela história de amor que se transformou num ódio tão doentio que só podia mesmo ter terminado daquele jeito: alguns tiros, duas mortes e muito sangue.

Ninguém sabe dizer realmente como aconteceu. Parece que ele bateu nela pela milésima vez e ela gritou que seria a última. Foi. Ela tinha arranjado uma arma com não sei quem porque a polícia local não havia terminado aquela averiguação – provavelmente de algum dos caras estúpidos que ela sempre acabava conversando – e aí o que se sabe é que os vizinhos primeiro ouviram um tiro, um grito, outro tiro e um silêncio profundo. Mas também poderia ter sido um grito, um tiro, um silêncio profundo, outro tiro. Não houve bilhetes ou pedido de socorro. Não houve nada depois do segundo tiro. Só um silêncio comum das cidades pequenas pela madrugada,  esse um pouco mais agoniante que o costume.

Tão agoniante que alguém ligou pra polícia e contou meio abismado que achou que ouviu tiros, que pode ter sido fogos de artifício, mas que duvidava porque não era festa na cidade nem dia santo nem final de campeonato nem nada do tipo. E que a casa vizinha ficou demasiadamente quieta para os padrões daquele bairro. A polícia chegou uns cinco minutos depois porque ficava há um quarteirão dali. E nada mais pode fazer. 

E foi assim que o casal atípico foi parar naquele jornaleco da cidade, dividindo opiniões dos leitores que não sabiam se eram doença, amor ou loucura. Talvez os três ou, pode ser, nada disso. Ninguém poderá dizer. Alguns dizem que ele realmente amou a mulher que estampava o jornal e outros falam que amor não machuca. Mas não há uma só pessoa no mundo que pode definir em palavras o que o amor é. A única coisa que se pode dizer é que aquela história nunca poderia mesmo terminar bem.

O que ninguém esperava era que terminaria com um final trágico, estampados em letras garrafais e se tornado notícia de um jornal de cidade pequena, bem diferente do que costuma (ou deveria costumar a ser) o inevitável fim.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Primeira e Última da Lista

Na segunda fase da seleção pedimos as meninas que escolhessem uma música e fizessem um texto em cima delas, sobre qualquer assunto, que coubesse na proposta da melodia/ letra. O primeiro texto foi feito em cima da música The A Team, do terceiro ruivo mais lindo do mundo, Ed Sheeran ;) Confira o resultado e não se esqueça, dê seu like e comentário no final, caso você gostar.



Vago pelas ruas mais uma noite. Olhos preconceituosos me observam. Ouço julgamentos e pessoas se afastam. É a noite mais fria do ano. Minhas roupas mal cobrem o meu corpo. Não como há dias e a minha garganta seca, talvez, seja um aviso de que o meu corpo está mais formado por pele e osso que qualquer líquido e a árvore dos meus pulmões está cada dia mais devastada. 

O dinheiro da última noite já foi queimado e preciso passar por outros corpos para consumir amanhã. Minha droga é a primeira da lista e me tornou a última da lista social.

Três anos já foram perdidos. Ainda ontem tinha dezoito e queria ganhar o mundo. A questão é que as piores coisas da vida vem de graça para nós e foi numa festa em que tudo começou. Entrei em um caminho ilusório porque a ideia de novas experiências aparentava ser muito melhor que uma vida comum.

Os anjos da esperança viraram corvos e pairam sobre a minha pele. O meu rosto demonstra uma década a mais e se desmonta cada vez que vejo o reflexo nos vidros dos prédios da avenida principal.

Poucas horas são o máximo que consigo manter minha boca sem fumaça e as mãos livres da lata. A fissura logo retorna e qualquer pensamento desaparece. Sou dominada por poucas pedras. Sou refém do meu corpo. Sou vítima da sociedade.

Com o cachimbo entro em êxtase e nenhum problema existe. Em alguns momentos, volto ao sorriso do meu filho no abrigo e a casa que deixei no interior.

O efeito ameniza, o flocos brancos aumentam e minha respiração falha. Aninho meu corpo embaixo do toldo do restaurante e minha pele fina é recoberta pela neve. Deitada anseio por condições melhores e dignidade. Cerro os olhos e sonho com isso. Porém, agora, pela última vez.


Ana Carolina Oliveira, tem 19 anos e é estudante de Jornalismo. A personificação do clichê e bastante idealista. Pensa muito mais do que fala e tenta reorganizar os pensamentos num pedaço de papel. Uma são-paulina que adora astrologia e mora no interior de São Paulo. Você pode acha-la no twitter pelo@kereoliveira

E aí? Curtiu? A Carol precisa que você comente e curte pra ganhar pontos nessa fase e talvez ser a escolhida pra entrar de vez da equipe! Não deixe de votar! E dessa vez é rapidinho, só valem os comentários e curtidas até amanhã, dia 26!!

domingo, 6 de julho de 2014

Se A Quiseres: Cuidado

Esse texto foi escrito inspirado na música Folhetim, do Chico Buarque
Para ouvir enquanto lê, clique aqui



Se acaso a quiseres, chega cedo e marca a hora, que talvez você conheça o relógio verde-neon que tem sobre seu criado-mudo num quarto imundo que ela imunda de seus cheiros, dores, odores e flores num apartamento sem número, endereço e morador de verdade, mas que tem uma dessas camas que a gente quer ficar pra sempre mesmo sabendo que "para-sempres" não cabem nesta história.  

O relógio verde neon eu dei a ela depois que voltei de uma dessas viagens chatas de trabalho, passava por uma banquinha qualquer e achei tão brega e luminoso e inebriante como ela que comprei e entreguei bem assim, nas suas mãos, como também tinha entregado meu coração.  

Mas ela cuida bem melhor do relógio, que marca as horas dos dias que ela passou comigo e não passa mais.

Se a quiseres, chega com carinho, devagarzinho, ofereça um drink enquanto ela balança as pernas sedutoras sentadas no balcão de um bar sem estrela enquanto bebe uma bebida muito ruim, mas que ela adora. Ela gosta de coisas ruins e isso pode incluir mais uma noite fracassada nos braços de um cara qualquer que ela não quer saber o nome nem o telefone pra ligar no dia seguinte. Ela gosta de blues amargos, cafés requentados, sorrisos fracos e de despedidas na calada da noite pra não precisar ver seu olhar de que-foi-que-eu-fiz-pra-você-não-querer-ficar-só-mais-um-pouquinho. Ela não nasceu pra romance, camarada. Se a quiseres, a queira sem querer nenhum compromisso para o dia seguinte. Que o dia seguinte é dela e de outro possivelmente que ela tromba pelo caminho e carrega pela sua mão, em rotas que ninguém mais escreve sobre o lençol de sua cama.

Mas não caia nos sussurros-gemidos-ai-meu-deus-como-você-é-gostoso que ela vai te dizer enquanto está sobre ela, nem nos ai-meu-deus-como-você-é-gostoso quando ela estiver acima de você. Quando ela te prender com aquelas mãos, com as unhas ferinas pintadas de vermelho, não deixe que ela te segure muito forte ou te fira fisicamente. Já lhe será duro o bastante não saber lidar com as marcas que ficarão em seu coração. 

Se a quiseres, não a coloque num desses pedestais porque de santa ela pouco tem, mas não a condene lá pro inferno, tá bem? Que a pureza dela tá naquele olhar doce de menina que ela esconde com sorrisos selvagens de batom vermelho e maquiagem de femme fatale. E se tu se aventurar por esses lados nunca mais vai achar saída alguma pra sua vida. 

Que ela te fará todas suas vontades e se entregará de verdade como poucas estão dispostas a se entregar; que ela fará com que você acredite por aqueles instantes-minutos-horas de prazer, seja lá quanto durar, que você a possui; e depois sairá sem despedidas-perdões-desculpas-acusações no meio da noite levando de você o que você nem mesmo sabia ter – a vontade de amá-la – e tirando de tu a sorte de poder amá-la. Ninguém a possui – nem a sorte, nem ela. E aproveite a chance com champanhe, romance, sexo, drogas, rock’n’roll, por cima ou por baixo, aqui ou lá, no corredor ou na casa dela, sem olhar pro relógio verde-neon que também marca suas horas com ela como marca as minhas horas sem ela. Que na manhã seguinte, eu odeio te falar, você será a página virada descartada do folhetim. Tal igual o relógio brega sobre o criado mudo e a mim.



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Uma Mulher de Quases



Ela balançava os pés na sala de espera, sentada numa poltrona de cor estranha que ela mesma arrumou para ficar reta enquanto olhava o número pendurado sobre a porta, impaciente. Estava meio torto. O número. Assim, coisa de milímetros. Assim, coisa que quase ninguém percebia. Mas ela, transbordada, nunca se cabia em quases. A secretária tentava não olhar para ela enquanto rabiscava em sua agenda e ela não olhava para a secretária enquanto balançava os pés no ritmo de uma música que não sabia a letra, só melodia. Tun. Tun. Tin. Tin. Tuntuntuntun. Tin. Era sempre constrangedor esses momentos de espera para ser atendida. Estava ali apenas há alguns minutos –tempo apenas de uma música chegar ao fim em sua mente –mas pareciam horas. Ela não media por relógio. Mas assim: dois quadros tortos, uma cadeira fora do lugar, o número da porta caindo, o computador ligeiramente mais para o lado direito, e, por Deus, a blusa daquela secretária estava torta, ela não se olhou no espelho? Isso era mais do que havia reparado na visita passada –o que talvez significasse que ela estivesse esperando a mais tempo. Ou não –Não deveria estar melhorando?

Não melhorou.

A porta do número 19 abriu e o nove meio que balançou no topo. Ela quase gritou. Quase, mas não era de quases.  Lá de dentro saiu um quase senhor quase jovem passando por ela sem olhar e sem encarar a secretária, marcando a outra consulta. Somos todos iguais, ela pensou. O médico saiu logo atrás, olhou para ela, deu um quase sorriso de canto, disse vamos? e ela foi. Na verdade, era um psiquiatra, mas ela não gostava muito desse termo –psiquiatra –para não dizer que ela não gostava nem um pouco, então recorria ao médico, só para não ter que explicar que não, ela não era louca. E não era. Só transbordada, o que era meio diferente. E meios diferentes, você sabe, se encaixam na categoria tratada por psiquiatras.

Ele era um cara legal –o psiquiatra, estou dizendo – Mas usava gravatas com linhas tortas e isso a deixava inquieta; não conseguia se concentrar e isso a frustrava. Não se lembrava como aconteceu. Quando, onde, por quê. As perguntas que ele sempre lhe fazia antes de receitar mais uma caixa de remédios tarja preta que deixava seu saldo no banco bem vermelho. Ela nunca gostou de nada torto desde criança e talvez por isso –só por isso –ela andasse detestando sua vida cheia de curvas e bifurcações. De quase chegadas e quase partidas. Ela detestava quase, se lembra? Era pedir muito uma estrada plana, sem buracos, reta e sem voltas rumo ao infinito?

Pelo jeito, era.

Mas, voltando às perguntas, ela não sabia quando perdeu o controle e caiu naquela armadilha trançada, cheia de cordas tortas, quadros fora do lugar e bagunças sufocantes. Talvez tenha sido depois que perdeu a mãe para um câncer maligno, pode ser, e ela percebeu que não podia controlar a vida –como ela tanto gostava de (se) controlar –; a mãe foi sua grande melhor amiga e perde-la de um jeito tão cruel e tão cedo havia sido um baque grande demais para nossa personagem principal não surtar. Surtou. Ou pelo menos foi isso que disseram que aconteceu ao perder o emprego e ir parar naquele consultório de número torto pendurado na porta. Ela até que tentou cair na bebida –achava que saía mais barato, veja bem –Mas nunca se deu muito bem com álcool. Então ela teve que achar um outro vício.

Arrumar as coisas milimetricamente parecia normal, até virar patologia catalogada num manual qualquer, e então a arrastarem para aquele consultório número 19 num prédio bem no meio de uma bifurcação. Não ache graça na ironia: chegar lá era um grande sacrifício de atravessar ruas cheias de buracos, curvas que ela não entendia e pessoas com roupas tortas pelo corpo. Dava agonia e desespero e ela tinha vontade de correr para a casa segura e se desinfetar daquela sujeira com um longo banho e uma vasilha de álcool gel como creme de corpo. Mas ela sempre chegava ao consultório porque era uma mulher que odiava quases, não porque era uma mulher que não desistia pelo caminho. Esperava por uns cinco minutos, observava as coisas fora do lugar, era chamada pelo médico, se irritava com aquelas gravatas malditas de linhas tortas, sentava e ajeitava umas duas canetas, ouvia a pergunta típica dele de e aí?-melhorou? Enquanto assinava uma nova receita com mais remédios cheios de efeitos colaterais e bem acima do que seu dinheiro poderia pagar.

Era melhor ter ido me viciar em bebida, ela pensava cá com seus botões completamente retos e arrumados em seu corpo.

Muito preocupado com a solução rápida e localizada, era o médico. Pouco preocupado com a localização do verdadeiro problema.

Ela disse que havia melhorado, mas sabia que era uma mentira. Uma caneta destampada-uma agenda na transversal da mesa -gravatas com linhas tortas-dois quadros tortos-malditos enfeites de mesa!  E ele deu um sorriso de como quem diz boa-menina-eu-disse-que-ia-resolver-seu-problema.

Não resolveu, ela pensou, e quinze minutos depois de ter entrado já estava saindo. Já tinha outro paciente na sala de espera olhando para baixo. Te vejo daqui quinze dias. E ela concordou e confirmou com a secretária de roupa torta e saiu sem olhar para o outro paciente e não disse que não voltaria, que aquela foi a última chance do médico –e dela –Porque já estava cansada de quases tentativas com total fracasso.

E foi para a casa desviando das listras tortas do passeio pensando em como odiava linhas tortas e como dava trabalho desinfetar aquilo dela com álcool e então teve um clarão. Desses tipo de filme mesmo, desses que até cegam se você não prestar muito bem atenção.

Era a vida dela que estava torta e não as linhas, os quadros, as canetas, as gravatas e as roupas mal vestidas. Não eram as ruas, as bifurcações, as calçadas mal planejadas e a ausência de retas infinitas. Não eram as pessoas que eram feitas de quase chegadas e quase partidas, era ela que quase partia e quase chegava. E se o certo  era achar uma solução rápida e localizada e sem dor ao invés de tratar de localizar o problema que ela nem sabia que era um problema antes de a jogarem naquele consultório número 19... Ela sorriu e pisou no espaço entre uma calçada e outra.


Uma pena que não tinha mais tempo para avisar ao médico que havia sido mais rápida do que ele ao encontrar sua própria solução –bem mais barata e eficaz do que a receita eu ela tinha na mão.




terça-feira, 15 de abril de 2014

Do Tudo Ao Nada - Sobre Caminhar Sem Destino



Primeiro o tudo. Festas, beleza, bebidas e gatos entrando e saindo de sua vida. Ela era do tipo que enlouquecia o homem; com artigo definido porque era definido por ela. Os olhos, diziam uns, eram convites irrecusáveis para viagens inesquecíveis. A boca, respondiam outros,  parecia ter sido desenhada para o pecado. Apesar das controvérsias, todos concordavam: cada curva naquele corpo era uma chance a mais de se capotar no meio da noite chuvosa e fria que ela sempre oferecia. Porque não havia ali dias de sol e noites de lua cheia. Ela nunca compreendeu o que causava; assim como nunca chegou nem perto de descobrir por que acabara. Mas sabia que, desde muito nova, enlouquecia quem quisesse enlouquecer. E, vez ou outra, se deixava enlouquecer também.

Agora ela estava sozinha. Pensando bem, apesar de ter sido alguém cheia de companhia, sempre havia sido assim, sozinha. Sentada em frente sua escrivaninha que ficava de baixo da janela que mostrava uma paisagem linda que ela já não apreciava. A sua frente, papeis que ela tentava ordenar. Queria escrever. Mas escrever, ela sabia, exigiria mais dela do que ela queria gastar naquele momento. Queria dizer como é que ela chegou ali, mas não sabia em que rua havia se perdido. Só sabia que se perdera em algum momento entre uma festa e uma ressaca, entre uma noite esplêndida e um corpo estranho de um rosto sem nome ao seu lado. Sabia tão bem disso que já não lutava mais para sair da situação que ela chegara com seus próprios pés, perdida em sua própria busca e arruinada pelos seus próprios sonhos.

Tragou um cigarro desses meio vagabundos, fedorentos, ardidos. Do pior tipo que você pode imaginar, bem pior do que todos os outros, quero dizer. Depois tomou um café na xícara já suja. Um café desses meio frio, meio amargo, meio fraco demais para fazer com que ela acordasse para vida. Ao invés de acordar, queria dormir. Aí resolveu pegar as balinhas que ganhou outro dia de um cara que tinha um sorriso bonito e um nome estranho. Nunca aceite coisas de estranho, quase ouviu sua mãe dizer, mas já fazia muito tempo que não falava com a mãe. Ela nem mais se lembrava do motivo. Num dia ela tinha sido a princesa da família; no outro escorraçada de sua própria casa a gritos e ofensas. Ela não tinha se ligado na época de como havia acontecido porque estava com adrenalina demais achando que ia ganhar o mundo. Pobre coitada, mal faz ideia de que foi ali que começou a se perder de si mesma. Então, como já não sabia nada de sua mãe, e seu pai nunca lhe foi de grande utilidade, ela pegou logo as três balinhas de uma vez e colocou na boca.

Queria escrever sobre um tempo que, sabia, não voltava mais. Mas que ainda estava ali preso nela como ela estava algemada em seus próprios erros. Uma vez, lá aos quinze, disseram a ela que o bom da vida é que a gente pode errar tantas e tantas vezes que sempre haverá um modo de consertar as coisas. Agora, com vinte e tantos e sabendo bem menos do que achava que sabia quando ainda era uma adolescente metida a rebelde de calça rasgada e furos na orelha, ouvindo uma banda que não era rock, mas que ela gritava pra todo mundo o quão rockeira era ela, já descobrira que nem tudo pode ser consertado, a gente não tem direitos de errar o tempo todo, nem de magoar quem nos ama, nem de abandonar quem somos para seguir o que quer que seja que esteja apontando pra nossa direção.

 Esse era o ruim da vida: chega uma hora que não há folha em branco, corretivo, rabiscos e pontos que possam melhorar a história. Ela chega ao fim. Se a gente só faz merda, nem sabe que destino queremos alcançar, chega ao fim antes da hora e acaba daquele jeito ali, como um blues meio antigo, insuportável no final. Como um café meio velho, que carrega uma borra ao fundo que transforma tudo intragável no final. Como um livro sem sentido que foi recusado pela editora só pelo título que, ela jurava, era o melhor de todos. Convencia pela capa. Mas a capa não se sustenta sozinha. E então já não lhe havia mais final. Ela queria escrever de um tempo que ela foi feliz –e sabia. Porque ela sempre achou ridículo pessoas que diziam que haviam sido felizes e não sabiam. Se a gente não sabe, questionava ela, então não fomos tão felizes assim. Ninguém duvida da sua felicidade –ela fica estampada em letras garrafais, olhares brilhantes, sorriso aberto e cantoria pelos dias cinzentos –Todo mundo sempre questiona sua tristeza. Falar um pouco das lembranças que ainda não haviam sido apagadas –mesmo que sem o som, sem as risadas, sem as cores e sem o tom de antes. Era triste admitir, mas ela havia se tornado uma dessas fotografias velhas. Parece assim tão bonitas quando emolduradas. Mas perdeu seus detalhes, sua cor, sua vida e seu amor. E ela nem sabe que amor que perdeu. Só sabe que nunca o encontrou. 

Mas só ensaiou umas desculpas numa letra esgarranchada porque ela já não conseguia segurar a caneta com precisão ou enxergar a folha que estava ali, bem na sua frente, por baixo de sua mão.

Depois das festas, a ressaca. Depois das paixões, a sensação de vazio que a atacava assim que pegava suas roupas e saía do motel, às vezes apenas um quarto estranho, às vezes também apenas seu próprio quarto. Como se não conseguisse se tocar depois de uma noite que, ela sabia, havia se divertido bastante. Sentia nojo dela em ocasiões nada especiais. Como se fedesse, independente do perfume francês que usasse.  Sentia vontade, por vezes, de se livrar de sua própria pele e talvez, só talvez, conseguir purificar sua alma. Mas sabia que não era possível, então apenas deixava seu coração se quebrar mais uma vez permitindo entrada de estranhos e a saída de conhecidos, sem nem conferir se a festa que oferecia valia o convidado especial da noite. Depois da beleza estonteante, um amontoado de mais ossos do que carne, meio assim, cadavérico. Depois de olhos que enlouqueceram, olhos que já não são vivos, que perderam a cor, o brilho e o convite irrecusável. Depois de sorrisos que davam a qualquer um segundas, terceiras e quartas intenções, apenas um amontoado de dentes amarelos, assim, quase caindo, presos apenas por um fio; um hálito de quem já havia se perdido do fio que se ligava a ela mesma.

Assinou qualquer coisa numa folha que já não enxergava. Não entendeu a letra. Sua mão tremida já não dava conta de segurar o lápis, a boca marcada já não conseguia manter o cigarro entre os lábios. Tudo ficou assim, de repente, meio embaçado. Meio amargo também, que nem o café que ela tinha quase certeza, derramou por sobre a carta. Que nem o blues ao fundo que ela não pôs para tocar, mas que ainda assim conseguia ouvir. Droga, foi quase o último pensamento, ninguém vai entender essa merda. Aí quase sorriu, porque ela mesmo já não entendia. O cigarro caiu no chão e com certeza causaria um furo imperdoável no tapete que ganhara de presente da mãe –o último desde que foi jogada para fora da casa e conheceu o lixo das ruas. O lixo que ela também agora era.  – Aí não deu mais conta e fechou os olhos, assim, sem lágrimas, sem dor, sem revolta. Mas com uma tonelada de culpa e uma enxurrada de arrependimento –tarde de mais para se mudar alguma coisa.


Quem não sabe para onde está indo, não vai notar se realmente chegou. Ela nunca chegou. E depois do tudo, a menina que podia ter alcançado o céu, mas chegou ao inferno sem conhecer as estrelas, se tornou mesmo, por escolhas próprias e erros sem conserto, um nada. Nada daquilo que um dia sua pobre mãe, seu pai assim nem tão pobre e ela mesmo sonhou. Perdida assim numa busca incessante para tentar achar um tudo, mas no fim não suportando o nada que se transformou.



Esse texto não tem compromisso com a realidade nem quer expressar a minha opinião sobre o assunto. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência da minha mente criativa.

sábado, 8 de março de 2014

Carta Para Quando Eu Partir


Não sei exatamente que dia é hoje, mas provavelmente eu já devo estar há alguns palmos abaixo do chão. Primeiramente, para de chorar! Você sabe que eu odeio quando tu chora, sabe que eu fico triste e sem jeito quando vejo alguma lágrima escorrendo, tímida, pelas maçãs do seu rosto. Então para, amor.

Eu te devo uma boa explicação, não é? Então vou lhe dar. Eu tinha uma doença terminal e escondi isso de você. Eu sabia que partiria silenciosamente, que não ficaria semanas numa cama de hospital respirando por aparelhos e todas essas coisas tão dolorosas quanto a morte em si. Eu sabia que a doença não daria sinais que de que estava ali, e foi por isso que escondi. Talvez eu tenha errado, mas juro que só queria te poupar. Eu não queria te ver sofrendo, porque isso tiraria de mim o pouco de forças que eu ainda tinha pra resistir respirando ao teu lado. Você me deu forças pra suportar tudo: a angústia de ter que esconder de você e a dor de saber que meus dias estavam, literalmente, contados.

Você sempre me dizia que a nossa vida estava na palma de nossas mãos, mas acho que isso te prova que não. Que não é bem assim. Que a nossa vida está na mão de algo bem maior do que nós. Infelizmente nós não somos capazes de controlar algumas coisas, querida. Eu não queria ter partido tão cedo, juro. Eu queria ter tido mais tempo pra realizar nossos seus sonhos, ter nossos filhos, viajar pra algum país de cultura estranha. Eu não queria ter ido embora sem nem ao menos dizer adeus, mas eu fui. Me pegaram pela mão e eu fui, nem de mim eu pude me despedir. Sei o quanto deve estar doendo em você, porque sei o quanto você me amava. E ama. E saiba que, onde quer que eu esteja, eu seguirei te amando e te cuidando, guiando, protegendo. Eu vou ser teu anjo.

Eu quero que você me prometa que vai ser muito feliz e, de preferência, ao lado de um homem que mereça todos os teus mil sorrisos. Você é nova e não merece, nem de longe, ficar presa a algo que virou pó ou qualquer outra coisa. O meu tempo acabou, mas o seu não. Viva o luto, querida. Chore, olhe nossas fotos, reveja nossos vídeos, fale de mim com a minha mãe, se feche pro mundo. Mas prometa-me que vai dar um fim nisso quando se sentir segura. Prometa-me que você superar a minha partida e que vai encontrar um novo alento. Eu quero que você seja feliz, mesmo sem mim. Queria eu poder te fazer a mulher mais feliz do mundo, mas isso é impossível, querida. Talvez, na próxima vida, isso seja possível. Mas em primeira estância, nesse momento, eu quero que você saiba que eu te amei demais e continuo te amando. Eu prometo que vou cuidar de ti e guiar teus passos. E saiba que a cada vez que você sorrir, eu sorrirei também.

Você é cheia de sonhos e de vida, aproveite isso, meu amor. Aproveita o tempo que a vida está te dando e seja feliz. Não deixe de sonhar por mim. Não deixe de lutar pelas coisas que você quer. Eu quero que você seja a mulher mais feliz desse mundo, porque eu sei que você merece isso e muito mais. Eu quero que você continue traçando suas metas e alcançando seus objetivos, como sempre fez. Eu parti e, tenha certeza, estou num lugar melhor.

Com amor e saudades,

O falecido Amor Da Sua Vida.


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Vermelho Sangue




Ela abriu os olhos, confusa. A luz da rua entrava pela janela, a cortina mal fechada, a noite de lua cheia. Quantas horas eram? Ainda estava com sono. Pensou em dormir. Mas ele estava sentado na cama, segurando um globo de neve, presente brega que pediu para uma amiga trazer. Ele olhava concentrado. Então girou a cabeça e sorriu.

-Te acordei?

Ela negou, sonolenta de mais para falar algo. Ele colocou o globo de neve na cômada, o relógio digital da cor vermelha –vermelhos sangue, ela se lembrou dele lhe dizendo quando compraram numa feira qualquer por quase de graça –marcava quatro e quinze. Da manhã.

Ela estava com sono.

A luz da rua não a deixava voltar a dormir.

-Não pode fechar a cortina?

-Acho que vou largar a psicologia –ele disse, esquentando as mãos na xícara que só agora ela enxergou

-Está com insônia outra vez?

-Não. Não sei. Talvez. Não tentei dormir para saber.

-Tenho alguns remédios aqui.

-Não, não quero dormir.

Ela assentiu, os olhos pesados. Fechou por dois segundos.

-Ouviu o que disse?

-Desculpe?

-Vou largar a psicologia –suspirou

-Ah. Por que? Achei que você gostasse do que fazia.

-E gosto.

-Não entendi. Você estudou seis anos para que? Para largar?

-É, eu sei. Louco não?

-Eu sempre disse isso. O que há?


Ele não a deixaria dormir até que terminasse o assunto, era sempre assim. Melhor faze-lo falar e acabar logo com isso.

-É como.. como se estudar sobre as pessoas me fizesse ver coisas que não veria, se fosse, sei lá, um engenheiro.

-O que quer dizer?

-É que as pessoas... as pessoas são como um rio, entende?


Ela negou.

Não entendia. Nem sabia se queria.

-Um rio, cheio de canais de afluentes que nos nutre. Alguns poluídos, outros límpidos como a nascente. Esse rio segue uma linha, nem sempre reta, que passa por montanhas, abismos, pedregulhos... Está me acompanhando? Pois então. Durante esse percurso o rio às vezes se mostra como é, mas na maior parte do caminho ele é escuro, escondido, perigoso.

-Onde quer chegar? –disse impaciente

-A psicologia serve para isso, entende? Para conhecer a parte do rio escondida em cada um de nós. E é aí que mora a questão, percebe?

-Não –se remexeu inquieta

-E que... bem, há rios que seria muito melhor não conhecer o que eles escondem.

-Estamos falando de pessoas ou de rios? –se sentou

-De rios. E de pessoas.

-Certo.


Ele estendeu a caneca para ela.

-Desculpe, só tenho leite em pó, sei que não gosta, mas... –deu de ombros –Você sabe que é a minha especialidade em termos de café.

-Latte. Meu preferido. Havia tempo que não fazia.

-Pois é.

-Pena que e leite em pó –fez uma careta, estava amargo –Continue.

-Desculpe. Onde estava mesmo?

-Na parte escondida do rio.

-Ah, sim. É claro –coçou as têmporas –Desculpe.

-Tudo bem.

-Então... há rios que nascem claros e límpidos, cheio de peixes vivos. As pessoas ficam perto e nadam por ali. Tudo muito puro, entende? Só que como aumento do rio, recebendo água de tantos afluentes diferentes, a água fica suja, sabe? Suja mesmo. E sobe montanha, desce montanha... passa por pedras e lamaçais... Ele começa a ficar barrento, pesado, e aí no final do percurso ele está tão escuro e sujo, que cheira podre, ninguém consegue viver nele.


Ele se levantou. A luz o iluminou a fazendo tremer, ele estava tenebroso, sombrio. De repente, ela queria acabar logo com aquele assunto, voltar para a paz de seu sono...

-E aí, Clarissa, você olha pro final tão sujo que não consegue mais ver a nascente limpa. Entendeu?

-Acho que sim.


Seu estômago contraiu. Ela parou de beber.

-As pessoas são assim, sabe? Não todas, algumas conseguem manter a essência que tem na nascente... Mas não sei, Clarissa, algumas se perdem no caminho. Prefiro acreditar que não é por maldade ou falta de caráter... Ainda acredito na boa fé das pessoas, sabe? Mas acho que é tanta informação e dores, e cicatrizes, e decepções, e mágoas, e sangue... Eu não sei, elas ficam sujas no final, entende? Chega a dar nojo. Vontade de por tudo pra fora.

Ela respirou com dificuldade, seu estômago doía. Queria vomitar, mas não conseguia. Também não conseguia falar. Olhou no relógio. Não via as horas. Só a cor vermelha. Vermelho sangue. Desesperou-se. Voltou a olhar para ele.

Ele não a olhou. Tirou um cigarro da bolsa. Acendeu. Tragou. Soltou a fumaça.

-E esse é o ruim da psicologia, entende? Porque você percebe essas coisas. Coisas que engenheiros, médicos, jornalistas, vendedores, não percebem. E aí você fica desesperado, Clarissa, porque você tenta despoluir o rio. Mas é sujeira de mais. Esqueleto de mais. Fedor de mais. E não para de chegar mais coisas mortas. E não adianta. –suspirou coçando o cabelo, desolado –Não adianta.

-Socorro... –ela balbuciou

-E aí, Clarissa –ele se sentou ao lado dela –só te restam duas opções: ou você abandona a psicologia, ou se livra dessa pessoa. Mas, na verdade, não adianta abandonar a psicologia. Porque você estudou, você sabe que mesmo se não quiser, vai acabar descobrindo o final do rio.


Ela deixou a caneca cair. Bateu no chão. Estraçalhou-se. Tentou segurar em algo, tentou respirar. O globo de neve caiu, o relógio também. Ele ficou ali, a olhando. Como uma última nota percebeu que o que iluminava seu rosto sóbrio não era a luz, era a lua.

Ele deu um sorriso triste, aproximou o rosto, beijou seus lábios.

-Desculpe, foi pro seu bem.


Ele estava sombrio, os olhos negros, e de uma maneira assustadora, mais bonito do que ela jamais vira.

Os olhos dela brilharam, uma última vez.

-Um dia, vai me agradecer.

Ele se levantou. O relógio ainda funcionava, marcava cinco da manhã. Ele deixou o cigarro cair. Pisou. Apagou o fogo. Pisou no relógio. Calmo. Vendo Clarissa morrer. A cor de sangue do relógio apagou. Só restou pedaços vermelhos no chão. Pareceu satisfeito. Sorriu. Deu as costas e abriu a porta.

Estava livre.

Caminhou calmamente pela rua iluminada pela lua.

Olhou pro céu.

Estava vermelho sangue, sua cor preferida.


Este texto foi publicado no livro Uma Dose de Café, pela Editora Multifoco, em 2012. Se quiserem ler mais textos nessa temática, pode comprar o livro clicando aqui. Qualquer cópia parcial ou completa deste conto em qualquer outro site, está amparado no contrato assinado com a editora, sob pena de plágio, viu?!


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Graças A Deus (E Ao Diabo)



Você poderia ter sido meu amor mais doentio, avassalador, dilacerador e visceral. Poderia ter me deixado em vísceras nojentas, feridas abertas e dilatado em mim minha loucura mais sangrenta. Ter sido meu escândalo escancarado na hora do rush em plena Avenida Paulista. E me feito rastejar por quilômetros mentais em busca da minha salvação. Você tinha tudo para ter sido minha própria salvação ou até minha própria perdição de vez aqui dentro e aí fora, no corpo santo e na alma voluptuosa que escondo com terninhos-chiques-de-escritório-e-maquiagem-angelical para adormecer o demônio que vive em mim. E você poderia ter me tido por mais de uma noite dividida naquele motel xexelento de beira de estrada que me levou para que aliviássemos uma tensão de uma semana louca de trabalho e o tesão natural de uma aventura desconhecida numa noite de happy hour da sexta-feira quente e inquietante num bar de uma esquina qualquer que nunca mais voltarei. E você poderia ter me prendido em algemas de verdade e não naquela algema vagabunda e preta que carrego na bolsa, compradas num sex shop de quinta para noites como essa. E teria me algemado a você e não numa cabeceira de cama também vagabunda do pior motel que algum canalha já me carregou. E eu poderia ter te rasgado a alma com minha entrega desmedida e não somente sua pele com minha unhas-compridas-vermelho-tigresa que te arrancou sangue em plena selvageria. E talvez você tivesse me tido doce como uma gatinha e não selvagem como uma onça; não apenas louca por sexo, mas sedenta por amor.

sábado, 2 de novembro de 2013

Quando A Gente Se Perde Dentro Da Gente


Abriu os olhos como se esperasse que da noite para o  dia –ou do dia para a noite, tanto faz, já que tinha perdido a noção das horas e do tempo –tudo tivesse mudado. Ou que, pelo menos, algum terremoto tivesse passado por ali enquanto dormia o sono-dos-calmantes e, ironicamente, tivesse bagunçado sua vida metodicamente organizada. Nada. Nenhuma blusa fora do lugar. Nenhum móvel caído ou quebrado. Tudo estava onde deveria estar, onde sempre esteve. A cama continuava vazia. Pior do que isso: fria. Mesmo que estivesse debaixo de três cobertores. Ainda que lá fora o sol estivesse, como dizem por aí, rachando o asfalto. Não era o que acontecia lá fora que importava –nesse tempo poderiam ter encontrado a cura da AIDS, a vacina contra o amor ou acontecido uma terceira guerra mundial –Nada disso importava. Era dentro dele que estava seu maior problema. É sempre dentro da gente que estão os problemas. Ou não estava, no caso dele. Ali, em seu coração, fazia um inverno mais rigoroso que as temperaturas do norte da Europa. Tudo havia morrido –inclusive e principalmente ele, ainda que ele estivesse respirando.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Era Um Casal Normal



Se conheceram numa dessas festas open-bar da faculdade, onde tem sempre muita bebida, música alta e pouca conversa. Foi sexo à primeira vista e amor ao primeiro toque. Abandonaram os copos para segurar as mãos. E, sem palavras, só olhares, decidiram sair juntos da festa para a casa dele. Se amaram lentamente, vagarosamente, necessitadamente. Guiados por uma paixão que nunca haviam sentido. Só depois, exaustos e tranquilos, satisfeitos e felizes, esquecendo-se de fingir um sono pós-sexo, foram feitas apresentações.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Cúmplice


Eu escutava sua voz aqui do meu apartamento. Aquele tipo estridente, porém feliz? Então, pelo modo como falava eu sabia que ela estava sorrindo. E por mais cansado que estivesse eu sempre prestava atenção na voz que vinha do outro apartamento. Era uma voz diferente das que já haviam passado por ali. 

O morador da casa ao lado era de poucas palavras. O pouco que eu sabia era que trabalhava. Pelas roupas eu diria que advogado. Saia tão cedo quanto voltava. Durante a semana, pelo menos, era assim, mas aos fins de semana, ah os fins de semana, o que não faltava ao apartamento ao lado era movimento. Movimento feminino, se é que me entende. Cheguei até a invejar a vida sexual ativa daquele rapaz, confesso! 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Laurita




Laurita era um demônio cravado em corpo de mulher. Desses corpos moldados para enlouquecer a qualquer um que, de tantas curvas, fariam quem se atrevesse a arriscar por aqueles caminhos esquecer-se do freio e capotar em um dos precipícios. As curvas de Laurita eram mais perigosas que a estrada de Santos cantada por Roberto Carlos e ela mesma se perdia entre lençóis sujos de motéis de beira de estrada. Tinha um olhar que deixaria Capitu louca de inveja e o pobre Bentinho louco de amor. Laurita poderia ter sido muito bem criada por algum escritor erótico-pervertido, que gostasse de coxas-grandes-e-bocas-pequenas que não tinham vergonha de dizer o que deseja em sussurros que chegam a deixar surda uma alma sensível.  E ela não tinha vergonha alguma. Mas Laurita era pior porque não estava nas entrelinhas de nenhum romance, e sim grifada com canetas amarelo-neon-de-motel-sem-nenhuma-estrela, na pele de cada amante que passou ali, nas curvas dos lençóis sujos e nos precipícios de Laurita encobertos por um corpo de mulher e uma alma de demônio.

domingo, 6 de outubro de 2013

Sem Titulo, Sem Você

Sugestão: leia ouvindo Untitled, do Simple Plan
Música que eu usei para fazer o texto :)))



As paredes me sufocam, mas não me esmagam enquanto não me movo da cama que um dia foi nossa e que ainda guarda seu cheiro de flores de campo misturado com sexo-drogas-e-rock’n’roll no sentido mais amplo que essa frase abrange. Eu próprio –e logo eu, aquele que um dia foi taxado por você de certinho-conservador –cheiro a um pouco de álcool, nicotina, maconha e a você de um jeito que faz parecer que você ainda está aqui, preenchendo os espaços vazios da minha vida entre parênteses que fica com sua ausência. Posso te sentir, não posso te tocar, mas você continua em todas as partes porque ainda está presa a mim de um jeito suicida que ninguém compreende –nem eu, porque a dor, como primeiro ato de sua ditadura, nos tira nossa capacidade de entender o que é que se passou.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Cuidado: Mulher Que Ama Demais


Ela deixou as roupas caírem no chão como um dia deixaram que ela caísse e entrou no banho.  A água quente escorreu pela pele fria deixando marcas vermelhas por vários pontos. Ela não se importou. Talvez, essas marcas, fizessem com que as cicatrizes colecionadas naqueles anos formassem um novo desenho. Quem sabe até uma flor. Quem sabe ela não conseguisse, então, tirar alguma coisa boa se conseguisse se livrar de uma pele machucada, como nos filmes, nos livros ou seu psiquiatra disse enquanto lhe receitava mais doses de Rivotril acompanhadas de lições meia-boca de desapego e amor próprio que ela poderia ler muito bem sozinha em um livro de autoajuda ao invés de gastar tanto dinheiro com aquelas sessões.

sábado, 27 de julho de 2013

Aquela Que Não Somos Nós


Ela que é perdida do mundo e de si mesma. Que anda desengonçada e aos tropeços. De devaneios e loucuras, de sonhos e pesadelos. Ela de açúcar que quase se desmancha na chuva. Ela que caiu tantas e tantas vezes, de cicatrizes e coração esmigalhados. E que já achou que era melhor desistir se fosse continuar a sentir tanta dor. Ela que insistiu só mais um pouquinho e quebrou a cara. Que deu as costas e foi embora e acabou se arrependendo. Ela de erros, defeitos, exageros e silêncios. Que grita calada e chora sorrindo. Que parece carregar um mundo nas costas e todos os sonhos naquele imenso coração.

terça-feira, 16 de julho de 2013

(Des)construindo



Então, eu poderia começar essa história como se começa todas as outras. Elogiando suas qualidades e fingindo que não havia ali nenhum defeito. Quase como se ele fosse um deus. Parece cruel criticar pessoas que já morreram porque, por si só, a morte já é cruel. Mas essa não é uma história como as outras. É apenas uma história. Qualquer. De um cara qualquer. Então, ele era apenas um cara, nem bonito, nem feio, nem gordo, nem magro, nem inteligente, nem burro, nem. Mais um de milhares que foram rotulados como “só mais um cara” sem sal, sem um grande futuro e sem mesmo um grande passado que pudesse virar alguma história. Dizem que, na vida, ou se morre como herói ou vive-se o bastante para se tornar vilão. Ele com certeza não havia vivido o bastante para ser vilão de nada. Mas também não era, nem de longe, considerado um herói.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Só Tem Treze Anos



Passos de tamanco ecoam pela casa. A mãe escuta. Não se mexe. Tem um cigarro na mão. Uma garrafa de vodca na outra. Está deitada no sofá. Os olhos vermelhos. Olheiras roxa, A tv está ligada. Não passa nada de interessante. No quarto do barraco sua filha se arruma. Ainda era uma criança. Deve estar colocando uma saia curta de mais. Ela deveria se levantar e impedir que uma criança de treze anos saísse de casa daquele jeito, aquela hora da noite, numa terça-feira. Mas está bêbada de mais para se levantar.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Mulher Que Não Sentia




Lá fora chovia. As ruas já começavam a ficar alagadas. E parecia que o mundo ia acabar. Dentro do Café, ela estava sentada e seca. Esperando por sua bebida quente para espantar o seu frio. Bota de cabo alto. Roupa de marca. Uma bolsa cheia de inutilidades. E um coração vazio de sentimento. Fazia tempo que ela havia parado de sentir. E não estou aqui falando de amor, já que para amar ela precisava ter um coração cheio de coisas boas. E, claramente, ela não tinha. Fazia tempo, aliás, e ela nem se importava. Mas ela também não sentia ódio. A gente oferece o que carrega dentro da gente. Ela trazia um enorme vazio existencial. E, então, nada poderia oferecer.

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