quarta-feira, 29 de maio de 2013

A Mulher Que Não Sentia




Lá fora chovia. As ruas já começavam a ficar alagadas. E parecia que o mundo ia acabar. Dentro do Café, ela estava sentada e seca. Esperando por sua bebida quente para espantar o seu frio. Bota de cabo alto. Roupa de marca. Uma bolsa cheia de inutilidades. E um coração vazio de sentimento. Fazia tempo que ela havia parado de sentir. E não estou aqui falando de amor, já que para amar ela precisava ter um coração cheio de coisas boas. E, claramente, ela não tinha. Fazia tempo, aliás, e ela nem se importava. Mas ela também não sentia ódio. A gente oferece o que carrega dentro da gente. Ela trazia um enorme vazio existencial. E, então, nada poderia oferecer.


Tinha unhas não feitas, boca ressecada, cabelo mal tratado e olhos sem brilho. Pediu o que seria o melhor café da casa. Um tal de Bailys Coffee ou algo assim. Café com álcool. Licor irlandês, café e chantilly. Tinha aparência alegre. O café. Não ela. Quase como se ela assumisse que, tudo bem ela não ser feliz, já que ela poderia beber aquele café. Nem queira saber se era mesmo bom, o tal do café com álcool, licor irlandês, diabo a quatro. Ela não sentia, lembra-se? Desceu quente pela garganta até encontrar o frio de sua alma. E congelou. Era o que acontecia com tudo o que se aproximava dela. E, não, essa mulher não era daquelas que sofreram uma grande decepção e nunca se recuperara.  Foi bem pior do que isso. Porque a vida tem mais a ver com as batidas, as quedas que se supera, a cicatriz que se arruma, o limite que você passa, do que com todo o resto. E se a gente não cai, a gente não dá conta de levantar. E se a gente não chora, a gente não sabe o valor de um sorriso. Ela nunca tinha ganhado nada na vida e por isso nada poderia perder. Uma mulher fria, sem ganhos, sem perdas, sem sentimento. Vazia como uma carcaça. Que nem conhece o gosto doce amargo que era viver. E, por tudo isso, não vivia.

Ela rabiscou num papel uma frase que ouviu por aí. Na aula da faculdade, talvez. Não se lembrava. E não importava. Fechou a mão com força para não perder. Largou o copo na mesa com, ainda, muito café. E saiu. Ainda chovia. Cidade um caos. Semáforos apagados. Ruas alagadas. Foi sem guarda-chuva, sem se proteger. Não sentia. Dentro do bolso, o papel amassado, a mão apertada. Lá ia a carcaça sem alma, molhada, e sem brilho. Sem pressa e sem prece. Atravessou a rua sem medo. Quase foi atropelada. Mas não era hora dela. E talvez nunca fosse. Olhos grandes, boca bonita, elegância ao andar, bolsa cara e vida barata. Uma semi-vida, uma carcaça. Olhos vidrados e sem brilho. Na mão aquele papel. Últimas palavras. Ou quase isso.

Uma cadeira. Uma corda. Um pescoço. E um pulo. Bota cara. Roupa de marca. Bolsa cheia. Corpo sem alma. Coração vazio. Vinte e tantos anos, beleza rara, uma vida pela frente e muitos sonhos abandonados. Um bilhete perdido no chão. Sem desculpas ou explicação. Vai saber quantos dias demorariam para darem falta daquela carcaça que há muito já não tinha vida. Vai saber se chegariam a tempo de encontrar o bilhete com uma única frase e entenderiam. Ela não se importava. Nunca se importou. Já não tinha vida e agora tanto faz. Mas ela entendia. Como ninguém. O que a frase deixada tinha a dizer.

Não se condena um suicídio porque às vezes ele é nossa única solução.


Para ela, foi.




Esse é um texto-teste para ver o que acham de contos mais pesados por aqui. Seria muito útil se vocês dessem sua opinião sobre o assunto tratado e sobre o jeito como foi tratado, críticas, sugestões e elogios são sempre bem vindos.

Ps: Esse texto não tem compromisso com a realidade nem quer expressar a minha opinião sobre o assunto. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência da minha mente criativa.

12 comentários:

  1. Nossa que texto! Forte, tocante e triste. As vezes o que falta na vida para se sentir ''viva'' é apenas a vontade de viver.

    ''E se a gente não cai, a gente não dá conta de levantar. E se a gente não chora, a gente não sabe o valor de um sorriso. ''

    Parabéns Nanda excelente texto é bom ler coisas assim também, é um tipo de leitura que nos prende atenção do inicio ao fim e nos faz refetir.

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    1. Pois é, e as vezes isso é tão difícil
      <3
      sempre fofa ne

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  2. Tava demorando vc vim com suas tragedias para cá kkkkkk , foi panque esse texto , mas como já disse toda tragedia que vc posta eu acabando lendo de qualquer jeito pq vc dificilmente erra

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    1. HSUHSAUSSHSUSHSUA é claro que não podia neeeeeeee
      minha marca

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  3. Gosto mais de textos de amor...
    Mas vc tem tudo pra se tornar uma graaaande escritora. E esse texto, apesar de pesado, tah lindo e bem escrito..
    Parabens!

    PS: nunca comentei aqui, mas leio o blog e sigo no fb há tempos, sou sua fã!

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    1. ah que linda, mas eu não sou tão boa asim pra ter fã não HSAUSAHSUSHS

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  4. Ai Nanada quando q1uiser postar mais desses fica á vontade.
    Que texto viu adorei afinal não da so p viver de amor rsrs Parabéns Nanda .

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  5. Porque a vida tem mais a ver com as batidas, as quedas que se supera, a cicatriz que se arruma, o limite que você passa, do que com todo o resto. E se a gente não cai, a gente não dá conta de levantar. E se a gente não chora, a gente não sabe o valor de um sorriso. Ela nunca tinha ganhado nada na vida e por isso nada poderia perder.

    AMEI srta Fernanda CONTINUE hm'

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  6. "Não se condena um suicídio porque às vezes ele é nossa única solução"

    É o que eu falo: não dá pra julgar as dores dos outros, porque elas não são suas.

    AMEI, Nanz <3333

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Comentários

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