quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Numa Calçada Cinza



Te vi com ela e isso me fez pensar na gente, quando ela era eu, quando você era apenas meu. Vocês estavam andando abraçados, despreocupados na calçada e eu ali, logo atrás, invisível pra vocês, pensando no que a gente foi. Fiquei pensando se você me abraçava como faz com ela, se me olhava como a olha, se me tocava como a toca. Se diz no ouvido dela as mesmas coisas que disse no meu. Se seus lábios percorrem o corpo dela como conheceu meu corpo e se ela se arrepiou como eu me deixei arrepiar. Fiquei pensando no seu coração –esse mesmo que eu quis tanto pegar para mim –e se ele bate tão forte quando a traz para seu peito quanto batia feito tambor ao me envolver em você.


Às vezes eu acho que foi apenas coisa da minha cabeça, tudo aquilo que eu achei sentir. Loucura de quem sempre precisou ser muito amada. Sabe toda essa fortaleza que construí para me afastar as pessoas? Só uma defesa idiota para me proteger de possíveis ferimentos. No fundo, eu sou gelo. E gelo, amor, derrete a primeiro toque, queima por dentro quando acha que dessa vez pode dar certo, desmancha ao ser envolvido e protegido por fortes braços calorosos. Não são todos que conseguem –depois de você, eu mergulhei em tentativas sem sucesso. Não para te esquecer, só para conseguir ser amada como tanto anseio. Não aconteceu. Nunca saberei por quê. Mas sabe toda aquela explosão que aconteceu com a gente, logo naquele nosso primeiro toque? Nunca mais senti.

Que se eu sou gelo, você foi fogo. E aí eu te pergunto, você explodiu do nosso jeito com ela também? Ou com ela o fogo queima devagar e por isso vocês duraram? Ela se encaixa em você como se sempre quis estar ali, como se sempre estivesse ali? E te faz parar de pensar nos seus jogos de vídeo game  quando te sorri desarmada a seus encantos? A pele incendeia com ela também? Isso aconteceu mesmo com a gente ou tudo não passou do meu desejo insano suicida de entregar-me para alguém que quisesse também se entregar completamente a mim?


Te vi com ela e aí deu vontade de te parar ali mesmo e perguntar tudo isso. Vontade de saber se nossos momentos foram reais e não vontade de ser. Você passou. Passou com ela por mim na calçada cinza e fria. E passou pela minha vida também. Não sinto falta, não sinto saudade, não sinto tristeza, não sinto. Mas te vendo com ela bateu curiosidade. Sei lá. Deu vontade de saber se a gente foi assim também. Ou, se pelo menos, a gente foi alguma coisa além do meu desespero de ter sido. Numa calçada cinza, te vi com ela e pensei que ela poderia ser eu, se a gente tivesse sido tudo isso que eu ainda acho que a gente foi. Mas a gente não foi, né? Ou foi. E virou passado. E passou pela calçada fria, pela cama quente e pelo meu gelo derretido que você deixou aqui dentro, junto com um coração destroçado por uma história que tinha tudo para ter sido muito mais. Mas acabou.

4 comentários:

  1. Perfeito, mostra a profundidade da dúvida com a sutileza das palavras certas .. Uma curiosidade pura, de querer simplesmente saber o que, sem querer voltar, sem amar, mas esse desejo de entender porque tudo deu errado. Amei, parabéns =)

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    1. Uma dúvida que sempre nos acompanha quando um relacionamento dá errado ne?

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  2. Esse conto é muito lindo. Parece meio o que aconteceu comigo não faz muito tempo...
    Beijos

    http://aquelediariosecreto.blogspot.com.br/

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Comentários

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