sexta-feira, 5 de junho de 2015

Carta sobre divórcio e depressão para meu Pai



Pai,

Eu não sou muito boa em me expressar, assim como você. Mas eu preciso fazer alguma coisa exatamente por sermos muito parecidos e eu mais ou menos te entender e saber o quanto você tá magoado. Eu sei que eu tô.

O objetivo dessa carta não é dizer que a mamãe tá certa e você tem que ceder, ou que ela está errada e você tem meu apoio incondicional. Como é que duas crianças vão saber alguma coisa sobre incondicional, quando nosso único parâmetro é o amor dos nossos pais?! Nossos modelos, nosso único motivo pra acreditar em casamento, em família, em compaixão.

Quando sentamos para conversar hoje eu já sabia do que se tratava antes mesmo de qualquer palavra ser pronunciada. E eu admito que temi por esse momento todos os dias da minha vida, especialmente nos que pude ver e comparar minha família e minha vida com a das minhas amigas de pais separados. Era um alívio saber que eu não passava por aquilo... o que torna o fato de estar passando por isso agora ainda mais insuportável.

Mas eu não vim aqui falar sobre um relacionamento que não cabe a mim e está fora do meu alcance, e sim sobre você. 

Pai, eu tenho muitas lembranças de você jogando futebol no condomínio, rindo com o Tio Marcos e contanto histórias da juventude. E todas elas contrastam MUITO com a realidade de hoje, porque você não joga mais futebol, não tem mais um amigo que seja mais seu do que marido-de-amiga-da-mamãe e pouco fala sobre qualquer coisa, quem dirá da juventude. Você mudou muito sim.

Isso me dói, mas você mais parece um conhecido com o qual eu só troco bom dia e boa noite, o mesmo diálogo que tenho com o porteiro. E eu vejo algumas amigas serem tão próximas e companheiras dos pais e me pergunto o que eu preciso fazer pra ter aquilo, porque te amar como elas amam tenho certeza que amo. E também tenho certeza do seu amor por mim. Mas, ainda assim, sinto muita inveja quando elas vão pro clube jogar tênis ou fazer uma viagem só com o pai. Me acostumei a fazer essas coisas, quando faço, só com a mamãe. 

Eu disse “quando faço” porque a gente sabe que eu também não sou nenhuma filha modelo que vai levantar e te chamar pra ir no clube, pelo contrário. Mas eu sinto falta de incentivo e de esforços conjuntos. Parece que só eu preciso mudar, que só eu sou a patinho feio da família. Mas, na vida real, os dois lados precisam fazer sacrifícios e se encontrar no meio do caminho, entende? E eu não vejo isso acontecendo nessa família, nunca.

Tô me sentindo uma hipócrita bastante incoerente, confesso, por reclamar das suas piadas com taxistas e garçons ao mesmo tempo que te peço pra ser menos estressado e mais bem humorado. Não faz sentido, né? A gente pedir de você algo e, quando você nos dá, a gente reclamar. Deve ser um saco, eu também bufaria muito. Por isso que acho que os dois lados é que precisam mudar, um sendo mais tolerante e outro sendo menos provocativo/repetitivo.

Acontece que, ainda que a gente ame te ver de sunga, bebendo cerveja e rindo na praia, a gente quer que isso seja mais frequente e em círculos mais privados (não com qualquer estranho na rua, sabe?). E pela sua personalidade eu sei como pedir isso é difícil, porque quando você me pede pra conviver mais com a família e “participar”, eu viro os olhos e acho um porre também! É muito difícil sair da minha zona de conforto.

Mas o que você não sabe é que apesar de por fora eu agir como se estivesse tudo bem, que minha vida andasse perfeitamente bem e eu não precisasse de ninguém me dizendo o que fazer, depois eu entro no meu quarto, sentindo um abismo de distância entre eu e minha família e choro sozinha. No fundo não tá tudo bem e eu me sinto mal por ser um monstro que dá patada e não pensa antes de falar coisas que magoam. Juro pra você, toda vez que eu sou grossa por 1 minuto eu passo outros 10 remoendo aquilo e me martirizando por ter feito. 

E eu quero muito que você pense nisso também, que cada minuto de conversa sejam 10 de reflexão. Que você não escute as críticas como uma vítima ("que tá ficando velho e deve ser muito ruim pra merecer isso”, como você sempre faz), e sim como um homem que vai precisar fazer alguns esforços e sacrifícios. Se não pela mamãe ou pelo casamento, por mim. Pelos seus filhos. Pois eu sei que me pedir pra participar mais nunca surtiu muito resultado, mas se eu fosse colocada na parede entre "ou participa ou vai embora", eu ia me FORÇAR e ESFORÇAR o dobro pra mudar. E eu não espero outra coisa de você. 

Uma coisa era sempre pedir pra parar com isso ou ser mais aquilo, outra coisa é chegar num limite onde pedir não basta mais e você precisa fazer.

Você diz que não tá reclamando da sua vida, que tá satisfeito com ela, mas a gente não tá! A gente quer mais PRA VOCÊ e por você. É errado desejar mais realização, sonho e motivação pra uma pessoa que a gente tanto ama?! 

Eu não acho! E tô falando isso por mim mesma, não pra defender minha mãe, porque eu não acho errado querer memórias do meu pai liderando o bloco como síndico, aprendendo inglês ou tecnologia sem ter que depender de mim pra isso, abrindo uma filial da loja do Flamengo, até ensinando matemática pra alguma criança. Qualquer coisa. Qualquer coisa que não seja só lembrar de você deitado na cama ou no sofá, esperando pra ser o motorista ou o banqueiro da casa. Qualquer coisa que nos faça ter orgulho de você não só pelo que você é (nosso pai), mas pelo que você faz e pelas coisas que você conquista. 

Sua rotina de agora não é saudável e não é a vida que você merece, ainda que você ache que ela te faça feliz. Eu tava conformada com minha vida de ir pra uma faculdade que eu não suporto fazer um curso que eu detesto, mas escolhi tentar outra coisa sem nem saber que era exatamente do que eu precisava. As pessoas recomeçam todos os dias, e tá na hora de você fazer isso também porque nunca é tarde demais.

Você já é um máximo, todas as minhas amigas falam e se impressionam. A Anna mesmo sem conseguir se comunicar com você e morando lá do outro lado do mundo me pergunta todos os dias como você tá e chama vocês de segundo pais. E como pai você é perfeito, nunca me faltou nada, nunca me senti desprotegida ou sozinha. Não precisa melhorar nesse quesito. Mas como homem, como ser humano, você poderia usar seu tempo pra contribuir MUITO mais positivamente para o mundo e, consequentemente, pra nós mesmos. Pra si mesmo.

Esse ócio, essa casca, essa falta de assunto por não fazer nada novo é o que tá atrapalhando, e é uma coisa possível de mudar. E você tem essa opção. O que que custa ceder em um aspecto ou outro, em algumas sessões de terapia aqui e ali, se no final das contas vai te poupar de perder coisas muito mais valiosas que o orgulho?

Eu tô te pedindo isso de forma egoísta mesmo, porque eu não quero você longe. Eu não quero ter duas casas, finais de semana com um e depois com outro, não quero ter que escolher nem me sinto capaz ou emocionalmente preparada pra enfrentar um pesadelo desses. Na teoria já sou uma mulher mas na prática eu ainda sou uma criança que precisa dos pais! Juntos. E se a única coisa impedindo que eu tenha isso é você se recusando a fazer algumas mudanças, então eu preciso te pedir pra ceder um pouco e encontrar a mamãe no meio do caminho. Ela também precisa e vai mudar algumas coisas, mas ninguém vai sair do lugar se depositar todo o peso e responsabilidade no ombro do outro.

Eu te amo, teimoso, resmungando, falando de linguiça, não interessa. Te amo e aprendi a ignorar, colocar meu fone de ouvido e abstrair quando você faz alguma coisa que eu não goste. Mas EU não convivo tanto com você quanto a mamãe, só o suficiente pra saber que ela não tá falando por mal e sim pra te ver bem (já que você insiste em dizer que já tá bem e já é feliz) melhor ainda.

Não quero ter que viver em um mundo onde meus pais não vão envelhecer juntos. Onde as viagens de fim de ano e Natal não vão ser como foram as anteriores. Não vou suportar essa realidade, então eu te imploro: o que você puder fazer para evitar isso, faça! Porque eu sei que você também não quer isso e vai ser infeliz sem a gente, ainda que tenha praia, Rio, irmãs e Maracanã. Você pertence aqui com a gente e eu não quero te ver em nenhum outro lugar. Só quero te ver o pai antes da aposentadoria - mais vivo, alegre, mais independente pra fazer coisas pra si mesmo. Investindo em você é que você vai tá salvando e protegendo todos nós.

Por favor, pensa muito nisso e volta logo pra casa, nosso mundo não é o mesmo sem você nele - e eu espero nunca ter que descobrir como ele seria. Não quero. 

Não deixa acontecer isso com a gente. Não depende SÓ de você, mas depende bastante de você. Eu me recuso a pensar nas nossas últimas memórias e datas comemorativas como sendo definitivamente as últimas pro resto da vida. Se eu achasse que fosse o melhor e mais saudável pra felicidade de vocês eu até enfrentava, mas não acho isso. Não ainda, não enquanto todas as possibilidades e chances não foram esgotadas. Elas não podem se esgotar, tá?

Eu não consigo nem imaginar o que são tantos anos de casamento, nunca fui mulher nem mãe de ninguém. Mas fui e sou filha do melhor casal que já conheci, no qual me espelho e me inspiro desde que me entendo por gente. Só falta vocês se espelharem e se inspiraram de novo um no outro. Reviver e reacender a chama - quando foi a última vez que vocês viajaram só os dois?! 

Você é a base dessa família e sem você ela VAI desmoronar. Não preciso de tempo nem de teste nenhum pra saber disso. Não vamos desistir. E nem você deveria.

Te amo muito.

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